Eric Rohmer
“A Padeira de Monceau” / “Le Boulangère de Monceau”
(França – 1962) – (26 min. - P/B)
Barbet Schroeder, Michèle Girardon, Claudine Soubrier, Fred Junk.
Eric Rohmer é um dos nomes incontornáveis da cinematografia francesa, conhecido também por ser um dos cineastas mais “palavrosos”, porque para ele a palavra possui uma importância fundamental nos seus filmes, já que ele também é o argumentista de todas as suas obras cinematográficas. Todos os seus textos estão publicados em livro, seguindo essa estrutura de série com que ficou famoso: os contos morais, comédias e provérbios, contos das quatro estações.
Mas antes de se tornar cineasta, ele que era o mais velho dessa geração conhecida do mundo como Nouvelle Vague, iniciou a sua actividade como crítico de cinema em 1948 na Revue du Cinema, passando depois por outras publicações como Les Temps Modernes (1949), La Gazette du Cinema (1950), La Parisienne (1956-1959), Arts (1956-1959) e a célebre revista Cahiers du Cinèma (1951-1963) onde assumiu o cargo de chefe de redacção. Ficamos assim já com uma ideia da sua paixão pelo cinema. Por outro lado existe uma história curiosa sobre o seu nome. Eric Rohmer é um pseudónimo, já que o seu verdadeiro nome é Maurice Scherer, e a razão do nascimento do nome Eric Rohmer prende-se com o facto de ele pretender esconder dos seus pais a sua actividade de critico/amante do cinema.
Quando Eric Rohmer assinou “La Boulangère de Monceau”, o seu primeiro Conto Moral, já possuía no seu curriculum sete filmes, sendo o mais famoso “Le Signe du Lion”, tendo também assinado o argumento do filme de Jean-Luc Godard “Tous Les Garçons S’Appellent Patrick”. Com o seu primeiro conto moral, Eric Rohmer irá oferecer-nos o seu olhar sobre personagens que se cruzam na cidade de Paris, filmando sempre com uma intensidade as ruas e os seus actores, que irá ficar para sempre como uma das suas marcas de cineasta, porque Eric Rohmer é na verdade um dos maiores autores da História do Cinema.
“A Padeira de Monceau” oferece-nos desde o primeiro minuto esse olhar da Nouvelle Vague sobre o Cinema, com a câmara a seguir as personagens, como se também ela fosse uma personagem, ao mesmo tempo que a voz do narrador é uma presença constante.
Guillaume (Barbet Schroeder, que mais tarde se irá tornar um excelente cineasta, como muitos sabem) é um jovem estudante de direito que, como muitos da sua geração, faz a chamada vida de café e um dia decide meter conversa com a jovem Sylvie (Michelle Girardon), porque ambos se cruzam diariamente nas ruas da bela cidade das luzes e como não podia deixar de ser um convite para sair não se fez esperar. E embora ela tenha aceite encontrar-se com ele, acaba por faltar ao encontro, ao mesmo tempo que desaparece das ruas do bairro.
Guillaume fica perplexo com a ausência da bela Sylvie e começa a rondar as ruas do bairro onde se cruzava com ela, mas em vão. Mas, ao ir até à padaria desse bairro parisiense, termina por travar conhecimento com a bela empregada que ali trabalha. E assim, todos os dias, ali vai comprar as suas “sablés” e rapidamente simpatiza com a rapariga. A sua alimentação começara a fazer-se à base de bolos e “sablés”, aproveitando sempre essa ocasião para conversar com a bela padeira, até que um dia a convida para sair. Mas nesse fim de tarde, em que ele esperava por ela na rua, surge Sylvie, afinal moradora no prédio em frente à padaria, que tinha estado imobilizada em casa devido a uma queda e ele de imediato decide partir com ela para jantar, deixando para trás a bela padeira de Monceau. Seis meses depois casaram-se e por vezes até iam ao estabelecimento comprar pão, mas a padeira já não era a mesma.
Eric Rohmer oferece-nos assim, neste seu primeiro conto moral, uma bela história em que o desejo do corpo amado é substituído por outra rapariga na ausência da eleita mas, quando ela regressa à “vida”, tudo muda e a possível “traição” que habita o horizonte, rapidamente é esquecida.
“A Padeira de Monceau” revela-se assim uma pequena pérola cinematográfica, que nos oferece uma simples história do quotidiano de uma geração, em que muitos terminam por se rever.
Rui Luís Lima
Eric Rohmer - (1929 - 2010)
ResponderEliminarClassificação: 5 estrelas (*****)
Estreia em Portugal: 22 de Junho de 1983 na Cinemateca Portuguesa.