sábado, 30 de novembro de 2024

Kraftwerk - “Autobahn”


Kraftwerk
“Autobahn”
Vertigo
1974

Florian Schneider - vocals, electronic.
Ralf Hutter - vocals, electronics.
Klaus Röder - violin, guitar.
Wolfgang Flür - percussion.

1 - Autobahn
2 - Kometenmelodie 1
3 - Kometenmelodie 2
4 - Mitternacht
5 - Morgenspaziergang

Kraftwerk

Os Kraftwerk, criadores da tecno-pop, com referências à música barroca nos seus primeiros trabalhos, mas seria com o célebre álbum “Autobahn” , que o grupo de Ralf Hutter e Florian Schneider descobriu o sucesso, depois “Rádio Activity” e “Trans Europe Express” (este último com uma homenagem a Franz Schubert) incorporaram a sua música robótica nos tops, como muitos devem estar recordados. “Man Machine” e “Computer World” ofereceram-lhes definitivamente o estatuto de estrelas, sendo o seu “Electric Cafe”, infelizmente pouco conhecido, um dos mais belos exercícios musicais, com uma filosofia própria, já bem patente nas obras anteriores.

Após o lançamento do “The Mix” onde são revisitados os seus trabalhos, os Kraftwerk demonstraram serem eles os pais da tecno-pop, revelando um saber e uma criatividade incontornáveis.

Rui Luís Lima

Kraftwerk
"Autobahn"

Revista Perspectiva nº.8

Anne Perry - "Silent Nights"


Anne Perry
"Silent Nights"
("A Christmas Begining" / "A Christmas Grace")
Páginas: 402
Ballantine Book

Faltam 25 dias para o Natal!

Clement C. Moore - "Twas The Night Before Christmas"


Clement C. Moore
"Twas The Night Before Christmas"
Páginas: 28
Amazon

Faltam 25 dias para o Natal!

Anne Perry - "A Christmas Odyssey"


Anne Perry
"A Christmas Odyssey"
Páginas: 170
Headline

Faltam 25 dias para o Natal!

Kim Cattrall - (1956)


Kim Cattrall
Aniversário: 21 de Agosto
Fotograma: "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim" / "Big Trouble in Little China" - John Carpenter.
Filme Favorito: "O Escritor Fantasma" / "The Ghost Writer" - Roman Polanski
Filme de Estreia: "Rosebud" - Otto Preminger

Lone Ranger - "Máscara Negra" - Charles Flanders


Lone Ranger
"Máscara Negra"
Arte: Charles Flanders
Argumento: Charles Flanders
Mundo de Aventuras nº.379 a 385 - 1ª Série
Ano: 1956

Esta aventura do célebre Lone Ranger fui publicada originalmente em 1952 e quatro anos depois surgiu na revista de banda desenhada "Mundo de Aventuras", publicada no sistema de "em continuação", uma prática desta revista na década de cinquenta, sendo já na década seguinte que irá optar pela publicação de histórias completas.

Rui Luís Lima

Juliette Gréco & Miles Davis - Jean-Philippe Charbonnier


Jean-Philippe Charbonnier
"Juliette Gréco & Miles Davis"
Salle Pleyel, Paris.
Ano:1949

Shaskespeare & Co. - Paris!

Beat Generation em Paris!


Shaskespeare & Co. - Paris!

Se for a Paris, não deixe de entrar na mais que famosa livraria da cidade, Shakespeare & Co, mesmo ali à beira do Sena e entre no espírito e na cultura de uma época, que nunca é demais relembrar aos mais jovens, para eles não caírem no conformismo e no consumismo.


Na Shakespeare & Co. podemos encontrar um dos mais belos espólios da Literatura Beat, incluindo as duas versões do famoso rolo de "On the Road" de Jack Kerouac, recordar a famosa "America" de Allen Ginsberg, mergulhar em "Naked Lunch" de William Burroughs e descobrir esses Paraísos que foram o México e Tânger para esta geração, que o diga Paul Bowles (um homem que pela idade já não pertencia ao movimento), mas que sempre foi reconhecido por todos como esse pai com quem todos eles gostavam de conversar e trocar experiências.


Não se esqueçam de visitar a Biblioteca François Truffaut (dedicada inteiramente ao cinema), no Les Halles e vejam o famoso filme de Robert Franck, sobre a Geração Beat, que também se encontra por lá à espera de ser visionado, partilhando connosco uma viagem talvez nostálgica mas repleta de memórias.


O ser humano é feito de memórias e são muitas vezes os livros a criarem as melhores memórias, esses eternos companheiros, que nos indicam o caminho ideal para chegarmos ao Paraíso.

Rui Luís Lima

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Annette Peacock - “X-Dreams”


Annette Peacock
“X-Dreams”
Aura Records
1978

1 – My Mamma Never Taught Me How To Cook – 5:31
2 – Real & Defined Androgens – 11:01
3 – Dear Bela – 3:03
4 – This Feel Within – 5:21
5 – Too Much in The Skies – 4:55
6 – Don’t Be Cruel – 4:36
7 – Questions


A chegada deste trabalho genial de Annette Peacock ao mercado discográfico no ano de 1978 deixou o universo musical surpreendido, depois de seis anos de silêncio após a sua estreia em 1972 com os álbuns “Dual Unity” e “I’m The One” e, na verdade, ao escutarmos nos dias de hoje este “X-Dreams”, que foi gravado nos Essex Studios em Londres, permanecemos fascinados pela magia que nele encontramos, especialmente pelo álbum de vinil apresentar dois lados bem distintos (o cd ainda não existia), algo que se irá continuar a verificar no trabalho seguinte intitulado “The Perfect Release”, surgido em 1979 e onde o “prato forte” era o tema “Survival”, que preenchia quase a totalidade do lado B do vinil..


Annette Peacock, um nome bem conhecido no universo do jazz como compositora, mas também pelas suas ligações sentimentais a músicos como Paul Bley e Gary Peacock (casou-se aos 19 anos com ele), derruba as fronteiras musicais e contando com a participação de nomes como Bill Bruford e Mick Ronson, oferece-nos um “X-Dreams” intemporal, permanecendo de forma eterna na vanguarda da música contemporânea, merecendo ser recordada pelos seus trabalhos discográficos, tanto como compositora, mas também como poeta e intérprete!

Rui Luís Lima

Annette Peacock
"Too Much in The Skies"

Jim Jarmusch - “Neil Young – The Year of the Horse”


Jim Jarmusch
“Neil Young – The Year of the Horse”
(EUA – 1997) – (107 min. – Cor / P-B)
Neil Young, Franco “Pancho” Sampedro, Billy Talbot, Ralph Molina, Jim Jarmusch.

Longe vão os tempos em que, após a rodagem de “O Estado das Coisas” / “Der Stand der Dinge”, Wim Wenders ofereceu a película que lhe restava a Jim Jarmusch e este partiu com ela para rodar essa obra intitulada “Strange Than Paradise” (a primeira versão). Muitos de nós ainda se recordam do soco no estômago recebido aquando da estreia deste filme no cinema Quarteto, todo ele rodado com planos fixos, a preto e branco e com um John Lurie que, para além de ser o protagonista, surgia também a assinar a banda sonora, uma obra para quarteto de cordas, música essa que ao nascer no écran este ficava quase “branco”. Recorde-se ainda, nestas “coisas” da memória, que John Lurie surgia também nessa obra charneira do cinema independente dos anos oitenta, realizada por Amos Poe, o fabuloso “Subways Riders” / “Viajantes na Noite”, que teve grande sucesso na época e que foi exibido no cinema Quarteto.

Neil Young & Crazy Horse

O trajecto de Jim Jarmusch é conhecido de todos, porque “Mistery Train”, “Night on Earth”, “Ghost Dog: The Way of Samurai”, “Broken Flowers” e “Dead Man” tiveram distribuição comercial, ao mesmo tempo que as curtas-metragens rodadas ao longo dos anos e intituladas “Coffee and Cigarrettes”, mais tarde agrupadas num único filme também andaram pelos nossos écrans. Mas será “Dead Man”, com um Johnny Depp em excelente forma, que nos interessa aqui como ponte para este “The Year of The Horse”, porque será através da sua fabulosa banda sonora assinada por Neil Young que irá nascer este “The Year of the Horse”, filme concerto sobre Neil Young e os Crazy Horse, que andam na estrada já lá vai quase meio século, mantendo a mesma atitude e energia em palco porque, para eles, o rock é sinónimo de vida porque “Rust Never Sleeps”.


Mas quem é Neil Young? A resposta todos sabemos (ou quase todos). Ele nasceu para a música nessa banda de country rock intitulada Buffalo Springfield, tendo-se juntado depois a três grandes nomes da música popular norte-americana criando dessa forma os mais que famosos “Crosby, Stills, Nash and Young”, um dos maiores super-grupos da história do rock, basta escutar álbuns como “Dejá Vù” ou “Four Way Streets” e está tudo dito. Para trás já havia um trabalho assinado com os Crazy Horse e, ao longo dos anos, ele foi assinando álbuns atrás de álbuns com os “Crazy Horse”, intercalando-os com outros seus trabalhos. Recorde-se a sua participação nesse filme concerto de todas as gerações chamado “Woodstock”, em que um dos responsáveis pela montagem foi precisamente Martin Scorsese, que mais tarde iria assinar em nome próprio essa obra única chamada “The Last Waltz”, lição perfeita de como deve ser realizado um filme-concerto e que serve de guia a todos os que pretendem entrar no género e Jim Jarmusch segue muito bem a lição dada pelo Scorsese .

Jim Jarmusch & Neil Young

A carreira de Neil Young na música possui momentos inesquecíveis como: “After the Gold Rush”, “Harvest”, “Freedom” e “Rust Never Sleeps” / “Live Rust”, tendo este último dado origem também a um filme-concerto realizado pelo próprio Neil Young, a que Jim Jarmusch não ficou alheio, apesar de tudo aquilo que os distingue. Aqueles que viram o filme de Neil Young, “Rust Never Sleeps”, rodado no palco do Cow Palace em 22 de Outubro de 1978, recordam-se de ver Neil Young a acordar no interior dessa enorme mala de viagem e a sair dela com a sua guitarra acústica, descendo as escadas que conduziam ao palco e iniciar a sua actuação a solo, quatro temas, debaixo do olhar daquelas criaturas com hábitos escuros e luzes vermelhas no lugar dos olhos, para no quinto tema atacar o piano, dando depois lugar aos Crazy Horse para demonstrar que o Rock'n Roll nunca irá morrer e esse concerto é a prova provada (desculpem a redundância).


Jim Jarmusch parte assim com Neil Young e os Crazy Horse para nos oferecer a sua história, registando os momentos dos seus espectáculos realizados no ano de 1997, ano esse intitulado “The Year of the Horse”, em memória/homenagem ao produtor (o quinto elemento do grupo), David Briggs, falecido no ano anterior e que nas vésperas da sua morte lhes disse que o ano seguinte seria precisamente “The Year of The Horse” (ou seja, o anos dos "Horse"). No início da película, enquanto os créditos vão passando, surge esta indicação do cineasta para o espectador, “proudly filmed in super 8” e “made loud to be played loud” e de imediato entramos no universo deste grupo, em perfeito convívio com o cineasta.

Neil Young

Não só nos é oferecido o registo dos diversos concertos realizados tanto nos States como na Europa, como ao longo das entrevistas vamos conhecendo a história destes quatro sobreviventes do rock pela estrada fora e vamos percebendo como nem sempre os tempos foram fáceis, a heroína foi deixada para trás, felizmente, como refere Frank “Pancho” Sampedro, esse mesmo Frank que às tantas chama de artista “intelectualóide” a Jarmusch e este lhe responde ser um cineasta-argumentista.


Ao longo da película vamos encontrando registos das diversas épocas do grupo e inevitavelmente vamos viajando com eles pelo interior do rock, dos anos setenta aos oitenta, demonstrando Jim Jarmusch um conhecimento perfeito do que pretende filmar, ao mesmo tempo que deixa a sua marca de autor inconfundível, terminando a película com essa célebre canção “Like a Hurricane”, usando dois registos diferentes com vinte anos de permeio.


Curiosamente, das três gravações mais célebres ao vivo de Neil Young e os Crazy Horse, musicalmente falando e registados nos trabalhos “Live Rust”, “Weld” (*) e “The Year of The Horse”, este último será talvez o menos bom, na nossa opinião pessoal e estamos a falar só do álbum. Por outro lado, será sempre curioso confrontar este filme de Jim Jarmusch com o realizado pelo próprio Neil Young “Rust Never Sleeps” onde a encenação possui um elemento preponderante no interior de um concerto rock (na época foi exibido no cinema Quarteto e está disponível em dvd) e nunca é demais referir que Martin Scorsese é decididamente o pai deste género com o grupo The Band.


Só para terminar esta viagem de Neil Young pelo cinema, nunca é demais referir a sua participação como actor no maravilhoso filme de Alan Rudolph “Love at Large”, numa daquelas histórias de amor e duplas identidades que tão bem retratou o cineasta canadiano, que possui a mesma nacionalidade de Neil Young.


“The Year of the Horse” é um filme inesquecível para amantes de rock puro, seja qual for a idade e isso é bem patente nos espectadores dos concertos e Jim Jarmusch consegue deixar-nos a sua marca na forma como monta o filme e na matéria usada. “The Year of the Horse” surge assim como a homenagem de Jim Jarmusch a Neil Young e aos Crazy Horse porque como diz a canção: rock and roll can never die!!!

(*) – “Weld” possui uma versão fabulosa de “Blowin’ In the Wind” de Bob Dylan.

Rui Luís Lima

John Steinbeck - “A Pérola”


John Steinbeck
“A Pérola”
Páginas: 146
Publicações Europa-América

A primeira vez que li “A Pérola”, de John Steinbeck, foi na pré-adolescência, quando surgiu na edição de livros de bolso da Europa-América e nunca mais me esqueci da história de Kino, esse pescador de pérolas, da sua mulher e do seu pequeno filho e desde esse dia percebi que o mundo estava dividido entre ricos e pobres e quando os que nada possuem, por obra do acaso, encontram algo que lhes poderá alterar a sua vida, são de imediato vítimas da cobiça e do cinismo humano, levado às mais trágicas consequências. 

Meio-século depois da primeira leitura, encontrei na escrita de John Steinbeck o mesmo prazer da leitura, fruto da genialidade deste escritor norte-americano, cuja obra está a ser reeditada na editora “Livros do Brasil”, incluindo este belo livro. Esperemos que as novas gerações encontrem na sua escrita o prazer da leitura e alarguem os seus horizontes.

John Steinbeck
(1902 -1968)

Nota: A edição que reli (com tradução de Mário Dionísio), chegou-me às mãos através dessa troca de livros, que existe em alguns locais, espero que o “Hammett” de Joe Gores (que tinha repetido) e que lá deixei, também tenha encontrado um novo leitor.

Rui Luís Lima

"Tom o Vingador - Em Luta com os Pele-Vermelhas"


"Tom o Vingador - Em Luta com os Pele-Vermelhas"
Mundo de Aventuras nº.s 360 a 384
Ano: 1956

Uma curiosa banda desenhada publicada na revista "Mundo de Aventuras" no sistema "em continuação", nos números 360 a 384, publicados no ano de 1956, que nos oferece o "western" como paisagem e possuidora de um argumento, nada plausível nos nossos dias. Tanto o traço, como a disposição do argumento em pequenos retângulos, marcaram uma época no interior da banda desenhada mais popular.

Rui Luís Lima

Jean Louis Forain - "Le Jardin Public"


Jean Louis Forain
"Le  Jardin Public"
Óleo sobre tela
54,9 x 45,7 cm.
Ano: 1884

The Globe Unity Orchestra - "Intergalactic Blow"


The Globe Unity Orchestra
"Intergalactic Blow"
JAPO 60039
JAPO Records
1983

Alfred Hitchcock - "Pobre Pete" / "Manxman"


Alfred Hitchcock
"Pobre Pete" / "Manxman"
(Inglaterra – 1929) – (77 min. / Mudo)
Carl Brisson, Malcolm Keen, Anny Ondra, Randle Ayrtom.

Para muitos “The Manxman” é o último filme mudo de Hitchcock, para outros será “Blackmail” / “Chantagem”, que possui duas versões: a muda (a primeira a ser rodada) e a sonora (a segunda versão, surgida devido ao aparecimento do sonoro), que levou Alfred Hitchcock a refazer o filme, tendo até a voz da protagonista Anny Ondra (famosa actriz checa do cinema mudo) sido dobrada. Polémicas à parte, “The Manxman” é uma das obras-primas do cineasta do período mudo, a par de “O Inquilino Misterioso” / “The Lodger”.


Logo no início do filme parece que vivemos no melhor dos mundos, na famosa Ilha de Man, onde dois amigos de infância Pete e Philip, de condições sociais diferentes (um é advogado e o outro pescador), são como irmãos e será isso mesmo que iremos descobrir no cais. Depois vamos acompanhá-los até ao “Pub”, onde é assinada uma petição por causa das quotas do pescado e aí iremos encontrar pela primeira vez a filha do dono do bar, a bela Kate (Anny Ondra) e de imediato somos obrigados a reparar que aqueles dois homens nutrem um profundo amor por ela.


Se Pete (Carl Brisson) é expansivo, já Philip (Malcolm Keen) é introvertido. E durante a assinatura da petição iremos descobrir o célebre humor hitchcockiano, depois Pete já sozinho com o amigo decide declarar o seu amor por Kate, mas o pai dela é na verdade uma montanha inacessível e será Philip, devido à sua condição social, que irá transmitir os sentimentos do amigo à família de Kate, sendo a reacção do pai dela a pior. Nessa mesma noite, Pete irá encontrar-se com Kate, informando-a que irá partir para África em busca do sucesso, para depois a pedir em casamento e ela decide esperar por ele.


Durante a ausência de Pete, os laços de amizade de Kate e Philip transformam-se em amor, repare-se na forma como Alfred Hitchcock nos informa da transformação dos sentimentos dela, através das páginas da sua agenda/diário (a célebre economia de meios), amor esse, quase proibido devido à promessa dada por Kate a Pete. Quando a notícia da morte de Pete é conhecida, a reacção de Kate surpreende Philip, “estamos livres” diz-lhe ela e assim o seu romance começa a ter pernas para andar. Mas o destino também prega as suas partidas e o falecimento de Pete não passa de um erro, ele estava bem de saúde e rico e iria regressar para os braços da sua amada.


Alfred Hitchcock começa então a explorar, já com mão de Mestre, o sentimento de culpa e traição que invade Kate e Philip, basta reparar em toda a sequência na praia, quando Kate sabe do regresso do Pete, ao mesmo tempo que vamos vendo o aproximar do navio que transporta o pescador. E se esse sentimento de culpa é maravilhosamente trabalhado, já o suspense começa a invadir o espectador quando Kate se encontra com Pete: todos pensamos que ela lhe está a confessar os seus novos sentimentos para, só no final do diálogo, sabermos pelos intertítulos que ela aceitou casar com Pete.


Começa assim uma verdadeira via-sacra para Philip e quando Kate fica grávida já todos sabemos que a criança não é do marido. Nunca é demais recordar que esta película é de 1929 e só de pensar nas reacções dos espectadores de então, temos a noção perfeita de como este filme estava à frente do seu tempo, uma verdadeira pedrada no charco. Iremos assim encontrar mais tarde os dois homens em casa à espera da notícia do nascimento da criança, dois pais esperando pelo nascimento da filha, descobrindo-se nessa espera o contentamento de Pete, ao mesmo tempo que vemos a angústia de Philip.


Alfred Hitchcock sempre teve uma predilecção por louras, como todos sabemos, e Anny Ondra é na realidade a primeira loura hitchcockiana, de uma beleza absoluta, sendo filmada com a mesma intensidade que Grace Kelly em “Chamada para a Morte” / “Dial M for Murder”.


Com o nascimento da criança, o remorso começa a invadir Kate, terminando por fugir de casa, refugiando-se no escritório de Philip. E a mulher que encontramos está no limite das suas forças, a forma como Hitchcock a filma diz tudo e as suas roupas são uma espécie de luto por um amor que nunca chegara a nascer. Mas a carreira de Philip está no auge, tinha acabado de ser nomeado juiz da Ilha de Man e a indecisão apodera-se dele. Kate acaba por se suicidar lançando-se às águas do mar. E aqui temos um dos mais perfeitos “raccords” da obra de Alfred Hitchcock, quando as águas do mar ficam confinadas ao tinteiro do Juiz Philip no seu primeiro dia de trabalho no tribunal.


A culpa surge assim como o protagonista do filme, essa mesma culpa que muitos anos depois irá perseguir Cary Grant em “Notorious” / “Difamação”, depois de ter enviado Ingrid Bergman, a mulher amada, para os braços de Claude Rains, para ela espiar as actividades secretas do marido com quem se casou contra vontade. Será essa expiação da culpa que iremos encontrar no tribunal, quando uma mulher é levada ao juiz para este julgar. Ela tinha-se tentado suicidar e depois de ter sido salva por um polícia recusava revelar a sua identidade.


Quando Philip reconhece Kate, o mundo cai-lhe literalmente aos pés e a sua tortura tem início, aumentando quando Pete entra no tribunal com a família para recuperar a esposa. Porém, esta nega-se a voltar para os braços do marido e mais uma vez o suspense instala-se na(s) sala(s) (a do tribunal e a do espectador), até ao momento em que o pai de Kate aponta o dedo acusador ao Juiz, como o principal responsável dos acontecimentos. Philip, que entretanto de Juiz se transformara em réu, vê-se de repente como condenado, decidindo abandonar o lugar pelo qual tanto tinha lutado e parte com a mulher e a filha rumo ao desconhecido, debaixo dos olhares odiosos de toda a população da aldeia. Pete, o Pobre Pete, regressa à faina da pesca, olhando com tristeza as águas do mar.


Mais uma vez recordamos que este filme é datado de 1929 e embora não seja um dos favoritos do Mestre do Suspense, ele é uma obra-prima do cinema do período mudo, uma daquelas pérolas que merece ser descoberta, já está editado em dvd numa cópia deslumbrante. Por outro lado, toda a realização de Alfred Hitchcock possui todas as coordenadas da sua futura obra cinematográfica, não só através dos planos perfeitamente elaborados, como a magia com que ele trabalha o “raccord”, depois temos sempre a forma como ele filma os sentimentos dos três protagonistas, oferendo-nos uma lição dessa Arte que foi o Cinema Mudo.

“The Manxman” / “Pobre Pete” merece ser descoberto por todos os Hitchcockianos e pelo público amante do cinema, porque só olhando o passado poderemos compreender melhor o presente, cinematograficamente falando.

Rui Luís Lima

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Triumvirat - "Spartacus"


Triumvirat
"Spartacus"
Harvest
1975

Helmut Köllen - bass, acoustic guitar, electric guitar, vocals.
Jürgen Fritz - electric organ, synthesizer, grand piano, electric piano.
Hans Bathett - drums, percussion.


Quando na Alemanha se impunha o denominado "krautrock" ou "rock alemão" ou ainda "música cósmica" (escolham o vosso termo favorito), surgiu uma banda de rock progressivo denominada Triumvirat que praticava uma música muito próxima da produzida pelos Emerson, Lake and Palmer,, mas que curiosamente se conseguia distinguir deles e que viria a ter um enorme sucesso na Europa.

O álbum "Spartacus", conta-nos a história do famoso escravo que liderou a revolta contra Roma é o tema deste seu álbum, que será certamente o mais célebre da discografia desta banda alemã.

Rui Luís Lima

Triumvirat
"The Capitol of Power"

Ingmar Bergman - "Sonata de Outono" / “Hostsonaten”


Ingmar Bergman
"Sonata de Outono" / “Hostsonaten”
( Noruega – 1978) – (92 min. / Cor)
Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lana Nyman, Halvar Bjork,
Gunnar Bjornstrand, Erland Josephson, Georg Lokkerberg.

Quando alguém fala nos suecos mais importantes da História do Cinema, de imediato três nomes se destacam na nossa memória: o cineasta Ingmar Bergman e as actrizes Ingrid Bergman e Greta Garbo. Se o realizador é um dos nomes mais importantes da Sétima Arte já as duas estrelas, nascidas em décadas diferentes, foram de um brilho insuperável. Enquanto Garbo nasceu na época do Cinema Mudo, a bela Ingrid conheceu o sucesso durante o período sonoro, sendo uma das grandes estrelas do Cinema Clássico, como todos sabemos. E se Greta Garbo abandonou o cinema demasiado cedo, o célebre lema “Garbo Ri” já não surtia efeito perante as novas estrelas criadas em Hollywood, Ingrid Bergman trocou a capital do cinema em pleno apogeu, quando tinha o mundo a seus pés, partindo para Itália depois de se ter apaixonado perdidamente pelo pai do neo-realismo, Roberto Rossellini, regressando alguns anos depois a Hollywood que a recebeu de volta, de braços abertos.


Porém, durante largo tempo, foram muitos os que se interrogaram porque razão os dois suecos com o mesmo apelido, mas sem quaisquer laços familiares, não surgiam no mesmo filme? Os anos foram passando, até que surgiu um projecto na década de setenta, de seu título “Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, sendo a produção alemã, embora as filmagens tenham sido feitas na Noruega. A razão era simples: Ingmar Bergman encontrava-se na época a residir na Alemanha devido a um problema com o fisco sueco, que o acusava de fuga aos impostos.


“Sonata de Outono”/ “Hostsonaten” oferece-nos o encontro entre Ingrid Bergman e Liv Ullmann, num daqueles duelos em que ninguém sai vencedor nem derrotado, porque ambas são dirigidas brilhantemente por Ingmar Bergman. Na época, aliás, falou-se muito em desacordos entre Ingmar e Ingrid por causa da abordagem da personagem interpretada pela actriz sueca, ambos tinham posições diferentes, para não dizer antagónicas, mas quando se vê o filme ficamos perfeitamente cativados pela forma como Ingrid Bergman trabalha a sua Charlotte, essa pianista que continua, apesar da idade, mergulhada na sua arte. E aqui, mais uma vez, é-nos oferecida a música de câmara, muito em especial um Prelúdio de Chopin, que nos é apresentado primeiro por uma filha envergonhada pela sua inépcia e depois por uma mãe que, do alto da sua autoridade artística, explica os sentimentos que presidiram à criação dessa obra de Frederic Chopin. E aqui percebemos que aquelas duas mulheres estão ali para se digladiar.


Mas voltemos um pouco atrás no tempo para entrarmos nesta história fabulosa de Ingmar Bergman. Charlotte (Ingrid Bergman) é uma pianista famosa e no dia em que o seu amigo Leonard morre no hospital, recebe uma carta da filha mais velha Eva (Liv Ullmann) a convidá-la para uma estadia na sua casa situada numa pacata aldeia, onde vive com o marido, um pastor protestante (Halvar Bjork), tal como o pai de Ingmar Bergman. Mãe e filha não se falavam, já lá iam sete anos, e mesmo quando o filho de Eva morreu afogado, a avó não teve tempo para visitar a filha. Ficamos assim de imediato a saber como funcionam os sentimentos de Charlotte e a sua relação com a sua arte, verdadeira paixão e fuga do quotidiano.


Quando Charlotte (Ingrid Bergman) se encontra com Eva (Liv Ullmann), tudo nos indica que aquela estadia será benéfica para ambas e nos encontramos no melhor dos mundos, porém lentamente iremos verificar que o passado está bem presente na memória de Eva e esta, por debaixo da sua aparente fragilidade, pretende fazer um ajuste de contas com a mãe, indo buscar todos os acontecimentos perturbantes de uma vida para assim o poder efectuar, de forma consciente.


Assim, nesse momento em que o casal aguarda a descida de Charlotte para jantar, esperando encontrá-la a envergar roupas escuras devido à morte do seu amigo Leonard (Georg Lokkerberg), ela irá surgiu num maravilhoso vestido vermelho e cheia de vida. Começa então o duelo entre ambas. Eva possui um trunfo poderoso, porque na sua casa está a viver a sua irmã Helena (Lena Nyman), que ela foi buscar à casa de saúde onde a mãe a tinha internado anos antes, para cuidar dela. E será no encontro entre Charlotte e Helena que Eva irá começar a sua escala no ajuste de contas de uma vida com a mãe. Essa mesma mãe que a obrigara a fazer um aborto aos dezoito anos, já que não acreditava no amor de adolescentes.


Porém, no interior deste duelo, temos um espectador: o pastor protestante marido de Eva, que no início nos surge como narrador, irá confessar à sogra que o seu casamento com a filha foi uma união onde o amor estava ausente, ele sabia que não era amado e só quando perderam a criança esse amor teve o seu nascimento.


Durante a noite Charlotte, que ficara profundamente chocada com a visão de Helena, embora tenha conseguido disfarçar os seus sentimentos perante todos, acorda no meio de um pesadelo, pensando que a sua filha doente a estava a agarrar na cama, essa mesma filha mais nova que nutre um profundo amor pela mãe como veremos, ao contrário de Eva (Liv Ullmann), que de filha dócil e tímida se transforma numa personagem sedenta de sangue, porque o passado permanece bem presente nela e ao encontrar a mãe na cozinha a meio da noite, decide ali mesmo travar esse ajuste de contas tão desejado ao longo da vida.


Muitos viram este filme como um reflexo da relação que o cineasta teve com o pai, tão bem retratada por ele no seu livro autobiográfica “Lanterna Mágica”, mas o que nos interessa aqui é, na verdade, a forma maravilhosa como Ingmar Bergman nos apresenta estas duas actrizes, numa verdadeira sonata onde o dueto feminino é o movimento principal desta película.


Por outro lado, neste filme, iremos encontrar a arte do grande plano, já que tanto Ingrid Bergman como Liv Ullmann nos surgem em planos espantosos, criados pelo cineasta e com uma contenção maravilhosa, basta recordar como, logo no início, Charlotte (Ingrid Bergman) fala para a câmara sem nunca o seu olhar se cruzar connosco, embora ele esteja em constante movimento. Já Liv Ullmann consegue, ao longo do seu duelo, oferecer-nos uma transformação facial que nos deixa perfeitamente atónitos pelo ódio que vai transparecendo no seu rosto, à medida que as acusações de uma vida aumentam.


No final da película iremos encontrar uma pianista que permanece no seu mundo musical, a viajar de comboio na companhia do seu amigo Paul, enquanto Charlotte regressa ao seu pacato quotidiano, depois de ter expulsado todos os demónios que a atormentavam. E quando a terminar nos são oferecidos os rostos dos três protagonistas, o cineasta consegue o prodígio de nos retratar a alma dos protagonistas. Ingmar Bergman, em “A Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, assina mais uma obra-prima do cinema e Ingrid Bergman deixa-nos um dos mais belos testamentos que uma actriz pode oferecer a essa Arte chamada Cinema.

Rui Luís Lima