terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Joni Mitchell - "Wild Things Run Fast"


Joni Mitchell
"Wild Things Run Fast"
Geffen Records
1982

Nesse ano de 1982 Joni Mitchell abandona a etiqueta Asylum Records e surge a gravar para a Geffen Records, quando foi lançada a "Dreamworks" e de imediato este álbum intitulado "Wild Things Run Fast", surge com uma produção bem diferente do habitual e seguindo de forma surpreendente por uma nova estrada, Joni Mitchell continuava a seduzir-nos com as suas canções!

Rui Luís Lima

Joni Mitchell
"Wild Things Run Fast"

Todd Haynes - “Seguro” / “Safe”


Todd Haynes
“Seguro” / “Safe”
(EUA – 1995) – (119 min. / Cor)
Julianne Moore, Peter Friedman, Xander Berkeley, Susan Norman.

Todd Haynes deu nas vistas em 1991 no Festival de Sundance, com a sua primeira película intitulada “Poison” / “Veneno”, que nos oferecia três histórias: Hero, Horror e Homo, sendo esta última baseada numa novela de Jean Genet. Quando em 1995, o cineasta decidiu fazer a sua segunda longa-metragem, intitulada “Safe” / “Seguro”, iria mais uma vez surpreender o público, que ao ver o nome de Julianne Moore no elenco, aderiu de imediato ao filme, desconhecendo estar perante uma obra que interrogava a existência contemporânea.


“Seguro” / “Safe”, conta-nos a história de Carol White (Julianne Moore), que possui tudo para ser feliz: um marido carinhoso, uma bela casa, tipicamente californiana e sem problemas económicos. No entanto ela não se sente feliz e começa a temer pela sua vida desenvolvendo alergias ao meio-ambiente, não encontrando ninguém, explicação para o seu estado de apatia e medo de sair de casa, porque lá fora o mal a pode contaminar. Desenvolve então um problema de pele, ao mesmo tempo que as dores de cabeça a invadem de forma violenta, passando as noites a ver televisão, como se estivesse hipnotizada pelas imagens. Preocupado com o estado da esposa, o marido, decide interná-la numa dessas clínicas ”New Age”, (tão do agrado de alguns), onde os médicos fazem diagnósticos complexos e desenvolvem tratamentos incomuns para fazerem regressar o bem-estar aos seus pacientes. No entanto, apesar de todos os esforços dos terapeutas e do próprio marido, que ama profundamente a mulher, o seu estado de saúde agrava-se de dia para dia, chegando ela a temer o próprio ar que respira.


Todd Haynes em “Seguro” / “Safe”, apresenta-nos o seu diagnóstico sobre a vida contemporânea, numa alegoria ao vírus do século xx, conhecido como sida, ao mesmo tempo que nos alerta para as contradições existentes no tão propalado sonho do “american way of life”. A interpretação de Julianne Moore é soberba, conseguindo contagiar o espectador com os seus medos e receios, desses vírus que a atingem e que ninguém consegue identificar. Esta película acabou por nos revelar um autor, cujos filmes seguintes irão comprovar o seu enorme talento.

Rui Luís Lima

Rex Stout - "O Cadáver que não se calou" / "The Silent Speaker" - "O Caso do Testamento" / "Where There's A Will"


Rex Stout
"O Cadáver que não se calou" / "The Silent Speaker"
"O Caso do Testamento" / "Where There's A Will"
Colecção: Obras Escolhidas de Rex Stout nº.3
Livros do Brasil

Não é todos os dias que temos Nero Wolfe a sair de casa detido pela polícia e depois na esquadra a agredir um inspector. Mas nada melhor do que dar a palavra a Archie Goodwin:


«Eu sabia que Wolfe não era tipo para brincadeiras e que, apesar da sua natural molenguice, era capaz de agir lentamente, quando a mostarda lhe subia ao nariz. Sabia também que detestava que lhe tocassem e, mais ainda, que o agarrassem. Portanto, preparei-me para intervir, no caso de as coisas se azedarem, como se prenunciava.
Porém, fui demasiadamente tardio. Com grande surpresa de todos e sobretudo de Ash, Wolfe ferrou-lhe uma «senhora bofetada», tão rápida, como violenta e sonora.
O inspector não percebeu imediatamente como aquilo acontecera, nem de onde proviera tão súbita e viril palmada.»

Rex Stout
"O Cadáver que não se calou"
Livros do Brasil

Arthur Penn - “Perseguição Impiedosa” / “The Chase”


Arthur Penn
“Perseguição Impiedosa” / “The Chase”
(EUA – 1965) – (133 min. / Cor)
Marlon Brando, Robert Redford, Jane Fonda,
James Fox, Angie Dickinson, E. G. Marshall, Robert Duvall.

Arthur Penn é um cineasta que neste novo século se encontra um pouco esquecido, mas se falarmos que ele é o autor (porque se trata de um verdadeiro autor) de “Bonnie and Clyde”, esse casal de gangsters que fez história, de imediato todos se recordam dele.


Como muitos, iniciou a sua actividade no Teatro, passando depois para a Televisão (NBC), onde na prática fez os seus estudos, tendo tido o seu baptismo de fogo em “Vicio de Matar” / “The Left-Handed Gun” e de imediato ficou associado a uma certa violência no cinema, embora distante daquela que nos iria oferecer Sam Peckinpah, um outro cineasta célebre e pertencente à mesma geração, também ele, infelizmente, um pouco esquecido.


Se olharmos para a filmografia de Arhur Penn, encontramos obras como “O Pequeno Grande Homem” / “Little Big Man”, uma revisão da história do Oeste Americano ou esse “western” nostálgico intitulado “Duelo no Missouri” / “The Missouri Breaks”, para já não falar nessa película espantosa chamada “Quatro Amigos” / “Four Friends”, que maravilhou a minha geração. Com ele trabalharam actores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman, Warren Beaty, Robert Redford e Dustin Hoffman.
Marlon Brando, o célebre actor do método, foi um dos repetentes e quando o encontramos em “Perseguição Impiedosa” / “The Chase” ele está no auge da sua brilhante carreira, sendo a sua interpretação extraordinária e inesquecível.


“The Chase” é um daqueles filmes que retrata de forma profunda a América interior dos anos sessenta, do século xx, essa América onde o racismo, o ódio e a violência convivem de forma subterrânea e onde um simples fósforo serve para atear a violência, da qual iremos ser espectadores ao longo da película.


Partindo de um argumento de Lilian Hellman, argumentista e dramaturga, companheira de Dashiell Hammett, cuja vida já foi retratada no cinema por Fred Zinneman, no célebre “Júlia”, entramos na vida de uma pequena cidade dominada por um magnata chamado Val Rogers (E. G. Marshall), dono do banco local, mas também de longos territórios onde o petróleo corre e no entanto ele é muito mais do que isso, porque é dono de todas aquelas vidas, até o xerife (Marlon Brando) lhe deve o lugar. E será nesta paz podre que um homem chamado Bubber Reeves (Robert Redford), nascido na cidade, irá servir de rastilho para uma explosão de selvajaria perfeitamente incontrolável.


Bubber Reeves é um daqueles jovens a quem a vida foi sempre madrasta, logo aos seis anos foi acusado de roubar cinquenta dollars, tendo sido enviado para o reformatório, depois de ser obrigado pela mãe a confessar o roubo que não fez, seria o seu amigo Edwin Stewart (Robert Duvall) o autor do pequeno roubo, que irá viver o resto da vida sem remorsos pelo acto praticado. Saído do reformatório, Bubber será sempre um “outsider” e embora conviva com a sua geração na cidade que o viu nascer, acabará por ir para a prisão, porque o seu destino estava traçado à muito, apesar da inocência viver sempre no seu interior.


A fuga de Bubber da prisão e o seu regresso à “pacata” cidade irá despoletar uma série de acontecimentos, que terminarão da pior forma possível, porque a sua presença destabiliza a vida de uma série de famílias. Será este o retrato poderoso que nos é dado ao longo de um dia e de uma noite, oferecido por Arthur Penn. Aqui iremos encontrar a violência e o racismo no seu estado mais “puro”, onde a justiça é feita sempre pelos detentores do capital, e acompanhamos ao longo da película a verdadeira via-sacra de Bubber Reeves.


Marlon Brando representa aqui o homem que pretende impor a lei, mas a sua acção será sempre condicionada por Val Rogers que domina tudo e todos. Inicia-se uma verdadeira caça ao homem quando se sabe da presença do fugitivo na cidade; e se o xerife o pretende proteger e a única forma é a sua prisão, já toda uma população sedenta de sangue irá impedir por todos os meios que isso aconteça.


Anna Reeves (Jane Fonda) é a única pessoa que pode proteger Bubber Reeves, como ele bem sabe, mas até ela o traiu porque mantém uma relação com o filho do magnata. Porém, tanto Anna como Jake Rogers (James Fox) irão fazer tudo para o salvar de ser linchado, pagando o segundo com a própria vida pelo seu gesto, porque a multidão fica incontrolável ao saber que Bubber se encontra refugiado num cemitério de automóveis, uma das sequências mais perturbantes do filme.


Mais uma vez a interpretação de Marlon Brando é espantosa, tendo dado até diversos contributos para a realização, embora por vezes Arthur Penn não tenha aceitado as suas sugestões, ficando célebre a sequência em que o xerife é violentamente agredido na esquadra por três dos homens que pretendem saber o local onde Bubber se esconde e onde descobrimos uma das famosas assinaturas de Arthur Penn.
Depois temos todas as histórias das pequenas e mesquinhas vidas de uma população que vive virada para si própria, desde o adultério à divisão de classes, passando pelo pequeno valor que tem a diferença da cor da pele, (ou seja nenhum, como veremos, já que o xerife Calder é obrigado a prender o negro que esconde Bubber, para lhe salvar a vida). Por outro lado encontramos também aqui aquelas personagens que, com a “melhor das intenções”, vão espalhando a intriga em busca da violência, tudo a bem da comunidade.


E quando o xerife Calder (Marlon Brando) se encaminha para a esquadra, levando preso Bubber, rodeado pela multidão que sedenta de sangue assiste aos acontecimentos, iremos assistir à sua morte por um dos homens que anteriormente tinha agredido selvaticamente o xerife. Assassinato que imita o de que foi alvo Lee Oswald o “assassino oficial” de John Kennedy.

Em “The Chase” Arthur Penn oferece-nos esse sul que tantas vezes serviu de tema a Tennesse Williams e que tão bem Richard Brooks levou ao écran em filmes como “Corações na Penumbra” / “Sweet Bird of Youth ou “Gata em Telhado de Zinco Quente” / “Cat on a Hot Tin Roof”.


Se alguns falaram na época em intervenções do produtor Sam Spiegel (um dos mais importantes dos anos sessenta, recorde-se a sua colaboração com David Lean), ela nunca irá alterar a força que este filme possui, a qual se mantém passado meio-século sobre a sua feitura.

Descobrir “The Chase” / “Perseguição Impiedosa” é entrar pela porta grande do cinema.

Rui Luís Lima

Michel Vaillant - "A Traição de Steve Warson” / "La trahison de Steve Warson" - Jean Graton


Michel Vaillant
"A Traição de Steve Warson” / "La trahison de Steve Warson"
Arte: Jean Graton
Argumento: Jean Graton
Páginas: 64
Asa/Público

A sexta aventura de Michel Vaillant, intitulada "A Traição de Steve Warson" / "La trahison de Steve Warson", volta a colocar frente a frente Steve Warson com o seu inimigo Bob Cramer, o piloto de má memória do carro nº.13, que correu no circuito de Le Mans, na anterior aventura de Michel Vaillant, saída da pena de Jean Graton. Neste álbum iremos encontrar mais uma história vibrante de suspense, para além da inevitável competição automobilística!

Rui Luís Lima

Edward Hopper - "Le Pont des Arts"


Edward Hopper
"Le Pont des Arts"
Óleo sobre tela
58,6 x 71,3 cm
Ano: 1907
Whitney Museum of American Art, New York.

Al Di Meola / John McLaughlin / Paco de Lucia - "Friday Night in San Francisco"


Al Di Meola / John McLaughlin / Paco de Lucia
"Friday Night in San Francisco"
Columbia
Ano: 1981

Nesse ano de 1981 alguns de nós apenas conhecíamos Al Di Meola do projecto "Go" de Stomu Yamashta, já John McLaughlin era figura grata dos Mahavishnu Orchestra, enquanto Paco De Lucia, esse mestre do flamengo, era um desconhecido, mas quando escutámos este concerto ficámos todos fascinados, desde os amantes do rock até aos amantes do jazz e, no meu caso, levei 15 anos a chegar a San Francisco e se perdi os King Crimson em Berkeley, ainda vi o California Guitar Trio em Santa Monica.


"Friday Night in San Frabcisco" é um álbum genial em que temos duetos e trios inesquecíveis:

1º. Paco de Lucia e Al Di Meola num tema assinado por ambos
2º John McLaughlin e Al Di Meola num tema da autoria de Chick Corea
3º John McLaughlin e Paco de Lucia nuo célebre "Frevo Rasgado" de Egberto Gismonti
4ª Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucia num tema de Al Di Meola
5º Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucia a interpretarem o "Guardian Angel" do célebre guitarrista dos Mahavishnu.

"Friday Night in San Francisco" é uma obra-prima da arte da guitarra!

Rui Luís Lima

John M. Stahl - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”


John M. Stahl
“Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”
(EUA – 1935) – (98 min. - P/B)
Irene Dunne, Robert Taylor, Betty Furness, Sara Haden, Charles Butterworth.


A memória do cinema, por vezes, é bem madrasta para cineastas que ofereceram a sua vida à Sétima Arte. E não é preciso ir muito longe para falar nesse homem chamado John M. Stahl, que nos ofereceu a Arte do Melodrama nesses longínquos anos trinta, e a sua genialidade era tão grande que, vinte anos depois, os mesmos Estúdios Universal que o acolheram durante a sua carreira, fizeram os “remakes” de três das suas principais obras: “Magnificent Obsession”, Imitation of Life” e “When Tomorrow Comes”, sendo essa tarefa de revisão entregue a outro Mestre do Melodrama: Douglas Sirk.


Porém, quando se fala dos geniais melodramas de Douglas Sirk, que tanto influenciaram a obra de Rainer Werner Fassbinder, o americano John M. Stahl fica quase sempre no esquecimento, surgindo apenas como autor de uma primeira versão das obras. Estamos assim perante uma das grandes injustiças da História do Cinema, sendo a outra o esquecimento de Frank Borzage, mas há muitas mais, referimos apenas estes dois nomes porque eles estão definitivamente associados a esse género chamado melodrama, que nunca foi muito amado pela crítica cinematográfica: o esquecimento a que foi votado pela Academia de Hollywood esse melodrama contemporâneo intitulado “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County”, realizado por Clint Eastwood, fala por si.


John M. Stahl iniciou a sua actividade em 1918, ainda nessa época heróica do cinema mudo e, até à sua morte em 1950, fez quarenta filmes, bem demonstrativos do seu saber, sendo também um dos fundadores da Academia de Hollywood, mas quando morreu foram poucos os que se lembraram dele.


“Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” é na verdade um produto da Universal, que sempre cultivou a Arte do Melodrama, esse género que levava as plateias a puxar do lenço para limparem as lágrimas, perante as tragédias que se desenrolavam no grande écran, tantas vezes o espelho perfeito de vidas anónimas, que ainda hoje se cruzam connosco.


Ao contrário de Douglas Sirk, que explorou no seu “remake” todas as potencialidades deste melodrama, pondo grande ênfase na questão da operação de Helen Hudson, John. M. Stahl tirou bom partido do facto da protagonista ser a fabulosa Irene Dunne, que mais tarde iria constituir com Cary Grant uma fabulosa dupla, e introduziu momentos de pura comédia, a um passo da tragédia, como veremos na chegada ao hospital de Helen (Irene Dunne) e Joyce Hudson (Betty Furness). Por outro lado a presença de Robert Taylor nesta película (ainda sem o famoso bigode), serviu de rampa de lançamento para o actor, que aqui começa na comédia e rapidamente vive o melodrama em todo o seu fulgor.


O Dr. Hudson é um homem que gosta de ajudar os outros e pratica uma espécie de filosofia que convida a manter secreta essa mesma ajuda, pedindo apenas que, em troca, a pessoa realize um acto idêntico perante o seu semelhante. Mas infelizmente o Dr. Hudson morreu de paragem cardíaca, devido ao facto de o único aparelho que existia na clínica ter sido requisitado para socorrer o “playboy” e milionário Bobby Merrick (Robert Taylor), que tinha caído no lago, perdido de bêbado, após horas de farra.


Robert Merrick recupera dessa noite sem regras, na clínica do Dr. Hudson, onde a consternação é geral pela morte do médico, e o destino fará com que se cruze com Helen Hudson, a esposa do clínico falecido, e fique fascinado por ela, embora esconda a sua identidade, devido aos acontecimentos recentes, mas a tragédia espreita na estrada e ela irá ficar cega para sempre…


Estamos assim perante esse perfeito território trágico, que John M. Stahl tão bem explorou e, quando revemos este filme, descobrimos nele a verdadeira essência do melodrama, nesses dourados anos trinta, hoje em dia infelizmente tão esquecidos.


(Re)vermos a obra de John M. Stahl é a melhor homenagem que poderemos prestar a este cineasta e será sempre de referir que a edição em DVD que a Costa do Castelo editou nos oferece as duas versões de “Sublime Expiação”, a de John M. Stahl e a de Douglas Sirk!

Rui Luís Lima

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Harold Budd - "The Serpent (in Quicksilver)"


Harold Budd
"The Serpent (in Quicksilver)"
Cantil Records / Land Records / All Saints
1981

Harold Budd – piano, electric piano, prophet 5, fender rhodes. keyboards.
Chas Smith - pedal steel guitar, piano.
Eugene Bowen – bass, guitar, keyboards, organ.

1 – Afar – 2:29
2 – Wanderer – 4:12
3 – Rub With Ashes – 1:54
4 – Children on the Hill – 5:02
5 – Widows Charm – 1:57
6 – The Serpent (in Quicksilver) - 4:03

Harold Budd é um dos nomes incontornáveis da denominada musica ambiental e este Californiano, nascido em LA, e que agora nos deixou vítima do “covid”, passou parte da infância perto do deserto de Mojave, na cidade de Victorville um local que convido que visitem ou atravessem o Death Valley, marcou decididamente este trabalho intitulado “The Serpent (in Quicksilver)” que, antes de ver a luz do dia no inicio dos anos oitenta do século xx, foi sendo composto e trabalhado em termos de produção pelo compositor em mais de uma dúzia de Estúdios, segundo ele próprio nos conta nas notas que acompanham este EP de apenas seis faixas, mas que se revela uma obra profundamente contemplativa e uma pérola musical, que convida o ouvinte a navegar por essas mesmas paragens, percorrendo o célebre deserto de Mojave, onde no cinema encontrámos Harry Dean Stanton (Paris/Texas) a vaguear “sem eira nem beira” ou esse Death Valley que também serviu de tema ao cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

Harold Budd
(1936 - 2020)

Logo no início deste fabuloso trabalho discográfico, iremos encontrar Harold Budd acompanhado por Chas Smith na guitarra eléctrica em “Afar” e de imediato sentimos o pulsar de “The Serpent (in Quicksilver), para depois nos quatro temas seguintes seguirmos o trajecto de Harold Budd a solo, tocando o habitual universo de instrumentos de tecla, que mais tarde irão ser trabalhados em Estúdio com as célebres misturas, criando a sua conhecida marca sonora e a fechar temos finalmente o tema que oferece o título a este trabalho discográfico, contando aqui o compositor com a colaboração de Eugene Bowen no baixo eléctrico e onde Harold Budd toca o então famoso Hammond Organ, para além do piano eléctrico.

Chas Smith
(1948)

“The Serpent (in Quicksilver)”, para além da reedição feita pela editora All Saints, pode ser também encontrado numa edição discográfica da Land Records datada de 1989, na qual acompanha o trabalho “Abandoned Cities”, datado do mesmo período criativo deste famoso compositor norte-americano. Ao escutarmos os seis temas que constituem “The Serpent (in Quicksilver)” percebemos o significado da palavra avant-garde.

Rui Luís Lima

Harold Budd
"The Serpent (in Quicksilver)"

Mike Newell - “Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”


Mike Newell
“Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”
(Grã-Bretanha – 1994) – (117 min. / Cor)
Hugh Grant, James Fleet, Simon Callow,
Kristin Scott Thomas, John Hannah, Andie McDowell.

“Quatro Casamentos e Um Funeral” de Mike Newell possui um excelente argumento de Richard Curtis e transformou decididamente a Indústria Cinematográfica Britânica, ao instituir a comédia romântica como veículo para o sucesso cinematográfico, já que após o êxito desta película foram inúmeros os filmes saídos das ilhas britânicas seguindo o caminho aberto por este filme. Por outro lado Hugh Grant irá desde então enveredar por uma carreira baseada um pouco na personagem nascida em “Four Weddings and a Funeral”, desistindo das composições dramáticas, como sucedia em “Maurice” de James Ivory.


A deliciosa película de Mike Newell conta-nos a história de um grupo de amigos, que se vai encontrando em diversos casamentos, sendo Charles (Hugh Grant) o padrinho do primeiro casamento, conhecido como eterno atrasado, onde irá encontrar o amor da sua vida, uma americana chamada Carrie (Andie MacDowell), por quem se apaixona.


Iremos assim assistir a diversos acontecimentos ou casamentos, se preferirem, que nos fazem o retrato de uma geração nascida e criada na “high-society”, e onde também não falta o dramatismo, quando assistimos à morte do folião Garet (Simon Callow numa extraordinária interpretação) e descobrimos que ele e Matthew (John Hannah) formavam um casal, algo desconhecido dos restantes amigos, sendo comovente o elogio fúnebre que é feito pelo seu companheiro, num dos mais belos momentos da película. Por outro lado se Charles (Hugh Grant) vê o seu amor casar-se com um rico escocês, também irá demorar a perceber que a sua eterna amiga Fiona (Kristin Scott Thomas) lhe dedica um amor secreto, que será revelado tarde demais.


Mike Newell em “Quatro Casamentos e Um Funeral” oferece-nos de forma perfeita o ambiente vivido nos casamentos, com os seus encontros e desencontros, veja-se a situação de Charles quando se cruza com as suas ex-namoradas ou esse momento em que decide casar com a Miss Bico de Pato, como é conhecida e no momento solene da cerimónia decide dizer Não!, para grande escândalo dos presentes e da própria noiva que reagiu de imediato, para mal do nariz de Charles.


Como não podia deixar de ser ao revermos esta película de Mike Newell, somos obrigados a recordar o famoso filme de Robert Altman “Um Casamento”, em que o cineasta americano nos oferecia uma crítica mordaz da sociedade norte-americana.


O delicioso “Quatro Casamentos e Um Funeral” de Mike Newell, abriu decididamente a estrada, para a comédia romântica se expandir no interior do cinema contemporâneo.

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "Mountolive" - (Quarteto de Alexandria 3)


Lawrence Durrell
"Mountolive"
(Quarteto de Alexandria 3)
Páginas: 382
Ulisseia

«Mountolive lançou em redor um olhar apaixonado, como se desejasse encher a memória para sempre com os detalhes desta terra e das feições que lhe sorriam desejando-lhes felicidades. «Até à vista», gritou, mas na sua voz Leila descobriu toda a ansiedade e dor que o oprimia. Narouz acenou com o braço curvado, sorrindo o seu sorriso torvo; Nessim passou um dos braços em torno dos ombros de Leila enquanto acenava com o braço livre, sabendo perfeitamente o que ela sentia, embora fosse incapaz de encontrar palavras para sentimentos tão equívocos e sinceros.

A barca desatracou. Estava tudo acabado.»

Lawrence Durrell
in "Mountolive"
Tradução: Daniel Gonçalves

Eric Rohmer - “Nadja à Paris”


Eric Rohmer
“Nadja à Paris”
(França – 1964) – (13 min. – P/B)
Nadja Tesich

No início da sua carreira, o cineasta Eric Rohmer assinou diversas curtas-metragens e “Nadja à Paris” é um maravilhoso convite a visitar a cidade das luzes, oferecido pelo olhar de uma estudante nascida em Belgrado, mas que cedo partiu para os Estados Unidos. A sua ida para Paris deveu-se ao facto de se encontrar a preparar uma tese acerca dessa figura incontornável da Literatura chamada Marcel Proust.


Iremos assim, através da câmara de Eric Rohmer, conhecer o dia a dia de Nadja (Nadja Tesich, responsável pelo texto que vamos escutando ao longo do filme). Na universidade onde se encontra existem estudantes oriundos de todas as partes do mundo, e será precisamente ali que a iremos conhecer. Depois saberemos que o primeiro bairro que conheceu foi Saint-Germain des Prés, embora se sinta muito melhor em Montparnasse, a conviver com essa intelectualidade que elegeu o famoso bairro como a sua casa por excelência.


A Paris que nos é oferecida por Rohmer não difere muito da cidade que é possível encontrar hoje em dia quando a visitamos, onde a cultura respira por todos os poros, despertando sempre o interesse dos seus habitantes pelos livros, esses bons amigos que nos abrem os horizontes do mundo em que vivemos.


Nadja adora sentar-se nos cafés simplesmente para observar a vida a passar, como fazem muitos dos parisienses nas suas horas vagas ou lendo aquele livro de “poche”, que nos desperta o interesse.


A descoberta do famoso Parque dos Buttes Chaumont, tranquilo e convidativo ao passeio, revela-se uma experiência inesquecível para Nadja que, depois de sonhar nas suas alamedas, mergulha no bairro popular de Belleville, para conviver com os seus habitantes, sentindo que não é ostracizada pelo simples facto de ser estrangeira, sendo recebia como uma parisiense, revelando-se Paris como a cidade perfeita para nos reencontrarmos com a vida e embora ela saiba que não irá ficar a viver na cidade das luzes para sempre, quando partir irá levá-la no coração, como nos confessa no final da película.


Esta curta-metragem datada de 1964, surge como uma bela e inesquecível homenagem à cidade de Paris, levada a cabo pelo cineasta Eric Rohmer, revelando-se como uma verdadeira pérola no interior da sua filmografia e que bem poderia ombrear com o famoso filme “Os Encontros de Paris” / “Les rendez-vous de Paris”, nascido décadas depois e que mais uma vez nos revela a paixão de Eric Rohmer pela cidade das luzes.

Nadja Tesich & Eric Rohmer

“Nadja à Paris” é a prova de que no território das curtas-metragens existem verdadeiras pérolas cinematográficas, que nos convidam à meditação e ao sonho.

Rui Luís Lima

Blueberry - "A Águia Solitária" / "L' Aigle solitaire" - Jean-Michel Charlier / Jean Giraud


Blueberry
"A Águia Solitária" / "L' Aigle solitaire"
Argumento: Jean-Michel Charlier
Arte: Jean Giraud
Páginas: 48
Asa/Público

O terceiro volume das aventuras de "Blueberry" surgiu em 1967 e assim iremos ter a continuação da série "Forte Navajo" com "Blueberry" a encontrar um adversário de peso chamado Águia Solitária, que se esconde como guia dos soldados azuis.

Claudine Blanc-Dumont
(1953-2012)

Como muitas vezes os responsáveis pela cor das aventuras de banda desenhada ficavam quase sempre esquecidos ou viviam no anonimato aqui vos deixo o nome de Claudine Blanc-Dumont (1953-2012) responsável pela cor da banda desenhada "Blueberry", entre outras, que infelizmente já nos deixou.

Rui Luís Lima