John M. Stahl
"Imitação da Vida" / "Imitation of Life"
(EUA – 1934) – (111 min. - P/B)
Claudette Colbert, Warren Williams, Louise Beavers, Rochelle Hudson, Fredi Washington.
Quando se fala de “Imitation of Life”, de imediato todos se recordam da obra-prima de Douglas Sirk, com Lana Turner e John Gavin nos protagonistas, esquecendo-se que o filme de Sirk é um “remake” espantoso, de uma película memorável assinada por John M. Stahl, com o mesmo título “Imitation of Life” e que foi produzida também pela Universal Studios.
E dizemos isto porque a obra de John M. Stahl é na verdade espantosa, tendo em conta o poderoso argumento baseado no livro de Fannie Hurst, que abordava esse tema, tão proibido nesses anos trinta, conhecido por racismo e que irá surgir aqui numa forma perfeitamente melodramática, com essa filha que nasceu quase branca a rejeitar a mãe negra, para poder sobreviver à segregação racial que então se vivia na América, de rosto descoberto.
Beatrice Pullman (Claudette Colbert) é uma viúva que perdeu o marido num desastre de viação, tendo continuado com o seu negócio de melaço para poder fazer frente às dificuldades económicas que o dia-a-dia lhe oferece, sendo também mãe de uma pequenita com apenas três anos. E será num desses momentos do quotidiano que a iremos conhecer, a dar banho à criança, com a habitual ternura maternal, que será interrompida quando o telefone toca e ela vai atender um cliente, para nesse breve instante, o leite ir por fora da cafeteira, as torradas queimarem-se, a pequenina Jessie cair na banheira e Delilah Johnson lhe tocar à campainha da porta.
É demasiado para uma mulher só e a negra Delilah, que ía responder a um anúncio que pedia uma doméstica ao local errado, decidiu colocar na ordem o caos em que aquela casa se transformara, enquanto Bea vai secar a pequena Jessie. Ao regressar à cozinha, Beatrice Pullman é confrontada por Delilah (Louise Beaves), que apenas deseja um tecto e comida para si e para a sua pequena filha Peola e ao escutar a história daquela mulher o bom coração de Beatrice Pullman acaba por ceder, perante aquela alma que só pretendia dar um pouco de conforto à sua pequena filha.
Delilah prepara então o pequeno-almoço para Mrs. Pullman e decide fazer as suas deliciosas panquecas, uma receita cujo segredo é bem guardado por ela. E depois de comer as saborosas panquecas, Beatrice Pullman decide abrir um café e apesar de não possuir o dinheiro necessário para o negócio, consegue levar de vencido esse desafio, graças ao sucesso das famosas “Delilah’s Pancakes” e ao seu poder de persuasão que, como uma simples bola de neve atirada do cimo de uma montanha, irá oferecer um mundo melhor àquelas duas mulheres, ao mesmo tempo que as suas vidas irão viver momentos tortuosos, que as marcarão para sempre.
Peola Johnson (Fredi Washington), desde muito pequena, que sempre tentou esconder que Delilah era sua mãe, porque ela era negra e desta forma as pessoas que a rodeavam iriam de imediato rejeitá-la, através dessa discriminação racial, tão em voga nessa época nos Estados Unidos, como veremos aliás nessa dia de chuva em que Delilah (Louise Beaves) vai buscar a filha à escola para ela não se molhar, causando a estupefacção na sala de aula, incluindo a própria professora, pela cor da sua pele. O calvário de Peola Johnson (Fredi Washington) estava traçado e ao longo da adolescência ela irá perceber que só poderá fugir dessa segregação racial se for capaz de afastar-se da mãe, provocando em Delilah um desgosto que lhe irá devorar a vida.
Por outro lado a bela e jovem Jessie Pullman (Rochelle Hudson) irá apaixonar-se pelo namorado da mãe, o galante Stephen Archer (Warren Williams) sem ele se aperceber, até chegar esse momento fatal em que lhe irá confessar o seu segredo, conduzindo esse estudioso da fauna aquática a um beco sem saída e levando a sua mãe a despedir-se desse amor, que tanto ambicionara.
John M. Stahl oferece-nos com “Imitação da Vida” / “Imitation of Life” um melodrama fabuloso ou se preferirem uma das obras-primas do género, que toca bem fundo no coração do mais empedernido ser humano. Se compararmos esta primeira versão do livro de Fannie Hurst, com o “remake” de Douglas Sirk, percebemos que também ele de certa forma lhe foi fiel, bastando para isso comparar-se as duas sequências finais.
No entanto Douglas Sirk tinha que deixar a sua marca e, ao ser detentor de muito maiores meios de produção do que John M. Sthal teve, decidiu explorar no écran a própria vida da protagonista, a actriz Lana Turner, que na época já não encontrava trabalho no cinema devido ao escândalo sucedido com o assassinato do seu amante, um conhecido mafioso, pela sua pequena filha que o esfaqueou. Recorde-se que este caso até serviu de tema a Woody Allen, quando ele escreveu o argumento de “September” / “Setembro”.
Lana Turner, na versão de Douglas Sirk, apresenta-se como uma estrela esquecida a viver com inúmeras dificuldades económicas, que fará o seu “come-back”, com enorme sucesso. Por outro lado Douglas Sirk explora ainda mais, a dor existente entre Peola e Delilah, levando o melodrama deste conflito racial a um extremo que deixa o espectador perfeitamente dilacerado.
(Re)descobrir “Imitação da Vida”, pela mão de John M. Stahl, é entrar nesse território do melodrama conduzido por um cineasta, que merece sempre ser recordado como um dos maiores criadores do género, na Historia do Cinema e como tal nunca nos poderemos esquecer dessa outra obra-prima, verdadeiramente sublime que ele nos ofereceu, intitulada “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven”, com os inesquecíveis Gene Tierney e Cornel Wilde.
Rui Luís Lima
John M. Stahl - (1886 - 1950)
ResponderEliminarClassificação: 4 estrelas (****)
Estreia em Portugal: 13 de Maio de 1936.